Espero me apresentar de acordo e com honra, espero
atender aos desejos da Sagrada Mãe e deixar aqui registrado esta história que é
minha vida e também o início de um povo. A minha família era parte dos Meriahs
das tribos Kondias, orgulhosa de ser a raça dravídica mais antiga do Punjab. Eu
sabia o meu destino e sabia o que me esperava. Este é um grande benefício que
tenho. É a minha sabedoria. Eu sou um Meriah e como tal responsável pelo
destino de todo um povo. As tribos cresceram e prosperaram após eu ser comprado
pela tribo Harapa. Meus donos faziam questão de manter-me ainda para uma
ocasião propícia e, segundo os chefes, à minha altura. Era abençoado por Tari
Pennu encarnada pessoa na terra. Todos viram quando ela se chegou a mim há
muito tempo e banhou-me nas águas do Ravi depois correu comigo pelos campos de
Punjab e deu-me de comer da árvore do conhecimento. Quando minha mãe contava
estes fatos eu a olhava admirado. Ela era a própria Tari para mim e eu não via
nenhuma mentira no que estava dizendo. Estes fatos correram mundo e muitos
chefes chegaram a minha tribo com ofertas e oferendas além de regalias para
minha tribo. Ofereceram a minha família, que era toda Meriah, ocasiões
especiais para suas sagrações. Duas tribos foram as que mais se destacaram na
disputa, ao final as tribos de Sind que se chamavam Daro e ficam bem ao sul
ficaram com minha família, meu pai e minha mãe. Quando partimos, cada qual para
direções diferentes, a tribo inteira veio se despedir. Era a única tribo
composta de tipos claros como o leite e eram os preferidos para serem Meriahs.
Dizem que quando a Grande Deusa pariu a terra os primeiros habitantes foram os
Kondias e o primeiro dos Kondia foi feito do leite derramado pela Árvore do
Conhecimento quando deu seu primeiro fruto e este foi arrancado pela deusa.
Muitos anos depois quando os terríveis bárbaros chegaram, foi a primeira tribo
a ser dizimada, embora os bárbaros nada tivessem contra a tribo dos Meriahs, na
verdade eles odiavam os ... que eram mais escuros e para eles representavam uma
espécie de Deus dos Submundos, não entendia direito o que isto representava,
mas mais tarde vim a conhecer a história, mas estou me adiantando, isto é para
quando Savitri com sua fúria indomável invadiu nossas terras. Meus pais já
tinham adubado as terras das tribos Daro há muito tempo. Faziam parte das
árvores e campos. Tari Pennu os tem ao seu lado para auxiliá-la na grande
tarefa de fazer águas saudáveis e terras férteis. Os Harapas me colocaram em um
templo da Deusa dentro da grande floresta que fica perto dos campos de lavoura.
No topo temos a visão de todo o planalto e do Rio Ravi que o circunda. As
aldeias são vistas em toda a extensão do planalto e a floresta forma como que
um coração no centro. Ali vivi muitas luas, solitário e com apenas guardas que
se revezavam como companhia. Já falei aos sacerdotes que preciso de alguém como
esposa, todos dizem que Tari Pennu encaminhará a pessoa certa na hora certa e
que se eu tiver que ter uma família assim será. Eu estou esmorecendo. É a
velhice acho. Resolvi então usar a linguagem ensinada por meu pai e esculpir em
pedras e lajes as histórias e contos. Mesmo assim, de que adianta tudo isso? A
Deusa é para mim minha vida e defendo a sua criação sempre. Sou cuidadoso com
minha aparência, tenho que ser. Tomo muito leite, como muitos vegetais e
legumes, não como carne e sempre estou com água limpa na piscina, feita
especialmente para mim, no quintal de templo. O povo me deseja, eu sei, eu
sinto, eu vejo, eu ouço. Tendo ser o que eles desejam e querem. De nada
adianta. Sempre chega um Meriah que toma a minha frente e lá vai em sagração à
deusa. Nunca me deixaram ver uma sagração, trancam os portões dos jardins do
templo e eu fico sozinho e isolado, às vezes com um ou outro Meriah que também
aguarda sua sagração. Muito raro. Esta tribo quer ser a maior dos Kondias e tem
realizado quase todos os eventos importantes, por isso tem poucos Meriahs,
quase sempre apenas eu, um ou outro chega, mas quase sempre perto de uma
sagração. Assim, acabo eu me tornando um inútil e procuro compensar com a
análise sobre as coisas e as pessoas. A tribo sempre vem ouvir um velho
sacerdote explanar sobre coisas que eu anoto e escrevo em tabuletas e lajotas,
não entendo muito do que diz pois estou longe deste tipo de relação. O velho
conta-lhes então que existem pessoas que tentando demonstrar interesse por
alguém acabam levando os outros a considerá-las malignas e cruéis e que estas
pessoas deveriam ser afastadas dos convívios sociais. Logo após alguém ter
estado doente, ao chegar em seu ambiente de trabalho, todos se interessaram por
sua saúde e solícitos e atenciosos perguntam como está. Tudo bem! É normal e
dentro dos padrões de sociabilidade, entretanto, logo a seguir começam as
expressões de pesar: “como você está pálido”, “como você está magro”, “Você
está se sentindo realmente bem?” Tudo isso para alguém que constantemente se olha no espelho da água e
vendo que está corado e muito bem de saúde e até seu peso chega a estar acima
da média, portanto acaba vendo que todas aquelas expressões são de malicia.
Agora, após esta primeira aparição, nos próximos dias existiram aqueles que
continuaram com sua campanha para desestabilização da pessoa, com expressões
cada vez mais terríveis: “você anda tão acabrunhado”, “Está bem realmente?”
“Voltou no sacerdote?”, “Ele te liberou para o trabalho?” “Tem certeza que está
bem?”, “Está tão tristonho!”. Estes são os maliciosos e perigosos. O que é
pior, não sabem nada da vida, quando perguntam, não ouvem a resposta e voltam a
perguntar sempre e sempre, enfim, estes momentos sociáveis terríveis são de
matar qualquer um de mau olhado. O pior é a hipocrisia de outros que te
perguntam como você está e nem sequer querem realmente saber, isto é apenas uma
mera formalidade da socialização. Os formais são terríveis, é a pior espécie,
pois eles não são sinceros e nem interessados. Alguém começa a falar e nota seu
olhar desinteressado e sua expressão de pouco caso acentuar-se a sua frente. O
incrível é como eles conseguem às vezes responder com qualquer coisa, coisa que
nada tem a ver com nada e que lhe deixa abismado e até mesmo acabrunhado por
ter tentado interessar tal desinteresse em sua vida. Todos se admiram e vão
embora e continuam sua vida da mesma forma e jeito como se não tivessem
escutado nada. Tudo isso está escrito ao redor de mim e pelo templo, este povo
é pacato e parado. Existe opulência e poder que não serve para nada. Os vales
são férteis e as tribos numerosas. Correm uns boatos de grandes povos
litigantes lá pelas fronteiras do norte, mas ninguém ainda os viu ou mesmo viu
alguém que os viu. Estamos muito acostumados aos Paunes, povos inúteis e
desorganizados das planícies que as vezes vendiam Meriahs para nós, pessoas
capturadas de outras tribos do norte, talvez deste povo guerreiro. Paunes as
vezes eram capturados e forçados a trabalhar nos campos mas de nada serviam.
Nunca ninguém se preocupou com isso, nunca ninguém jamais pensou que o imenso
império de indu poderia ruir. Estes outros, do Norte, chamados de Àrias pelos
Paunes, dizem que são guerreiros e terríveis. Um povo feito de apenas
guerreiros é algo de abismar. Os campos são ceifados e as colheitas carregadas,
os rios drenados e os povos sagrados sendo ou não Meriah. Era espantoso de se
ouvir e muitos nem acreditavam. Tinhamos tecelões e artesões que viviam na
grande cidade e que comandavam grandes famílias. Nosso povo estava mais
preocupado com a coletividade e o que acontecia na periferia não interessava.
Outro dia ouvi uma jovem comentar a uma amiga a caminho do campo de lavoura “Como
tem gente feia neste mundo”. A outra olhou para ela sorrindo e concordou. “ De
uma mão se tira um dedo”. Olharam para
mim de soslaio e cochicharam. “Como os Meriahs são bonitos!” Eu não precisei
esforçar os ouvidos, os guardas que me acompanhavam as espantaram, gritando e
espetando lanças em suas nádegas. Ninguém do povo podia ter contato comigo, eu
jamais cheguei a trocar uma palavra com alguém que não fosse um sacerdote.
Ambas persistiram em suas posições e galantearam com os dois guardas que acabaram
esmorecendo após um olhar para meu rosto aparentemente inexpressivo e alheio a
tudo. Elas continuaram lado a lado e a moça mais faceira e de pele mais escura
comentou. “Não gosto de analisar ninguém pela aparência, mas estou começando a
ficar abismada com o que vejo, as pessoas perderam todo senso de seleção e até
toda a capacidade de distinção de beleza física. A Deusa adora os belos, porque
nós não devemos também ser assim em vez de contentar-nos com um saco de
excrementos?” Senti vontade de rir. Contive-me, pois os guardas estavam
interesssados na conversa das moças, sentiam ali uma forma de expressão na qual
elas tentavam dizer que eles eram bonitos. Na verdade um deles até poderia ser
considerado assim. Não acredito que elas estivessem se dirigindo aos guardas e
sim a mim. Elas estavam sempre nas palestras do sacerdote e eu sabia que
queriam que eu falasse a respeito. Sorriam alto para os guardas e dirigiram um
olhar rápido e matreiro em minha direção e se afastaram festejando e
requebrando as cadeiras. Os chefes pediram aos guardas que me levassem até o
Daros, eles haviam me comprado. Houve um atrito entre os Harapas que
reivindicaram toda a margem do Ravi expulsando os Daros para as margens do
Indo. A força e o poder dos Harapas ainda não se igualava ao dos Daros. Para
apaziguar os ânimos os Daros ofereceram me comprar para fazer uma sagração
conjunta com dois Meriahs deles, uma, segundo diziam, era tão branca quanto o
leite, e o outro, um guerreiro do norte comprado dos Paunes tão peludo e escuro
quanto um touro negro. A medida que caminhavamos em direção a Daro fui ficando
espantado com o nível de desenvolvimento das tribos Daro, não deviam nada aos
Harapas e jamais foram subjugados. Diziam até que seus guardas conseguiam até
guerrear de igual para igual com os Árias, o povo do norte cada vez mais
invadia seus territórios e seus chefes diziam aos povos que sempre acabariam
saindo vitoriosos. Seu povo clamava pelas ruas num ritual de vitória quando
cheguei. Alguém estaria sendo sagrado. Não esperava aquilo, senti um certo
receio, pois sempre lembrei o que minha mãe me dizia para jamais presenciar uma
sagração. Sabia o que acontecia, com os anos que tinha seria burrice de minha
parte se não tivesse dado um jeito de presenciar uma. Quando chegamos ao templo
o Meriah estava amarrado a grande árvore do conhecimento no centro do pátio.
Era um Daro bem novo, devia ter recém ficado homem e, segundo os sacerdotes,
estes eram os preferidos da deusa. Era bonito, com sua pele escura e sua testa
alta, o cabelo crespo trançado e preso em cima da cabeça. Olhos escuros,
grandes e ovalados, rosto redondo e lábios carnudos, nariz curto e pequeno.
Todo pintado de açafrão vermelho. Parecia um jovem deus adornado de jóias,
sedas e flores. Tiara de marfim com esmeraldas e rubis que cintilavam com os raios de sol que declinava por entre
os ramos da floresta. Colares de pérolas e pulseiras de ouro e prata. Cintos
trançados de fios de ouro e lenços de sedas multicores. Estavam no final da
adoração. Começaram então a disputar os adornos do jovem, cada representante de
uma família disputava com os outros representantes os adornos controlados pelos
sacerdotes. Algumas mudanças sairiam dessa disputa e famílias cairiam em
desgraça e outras seriam abençoadas, mas ainda dependia da sagração e da
colheita. De nada adiantaria ter todos os adornos do jovem e uma colheita
péssima. Um novo ciclo iniciava até a próxima colheita quando as famílias se
reuniriam e os sacerdotes dariam seus veredictos dos novos primazes, entretanto
era ali que tudo começava e todos sabiam que as colheitas eram quase que como
uma conseqüência da quantidade de adornos adquirida e que estes eram os que
resolviam a disputa no final. Os sacerdotes viram eu chegar, os chefes também,
todos se inquietaram. Era uma ofensa, eu sabia. Os dois guardas adiantaram-se,
já estavam sob o efeito da erva sagrada e postaram-se em frente ao Sacerdote
Chefe e anunciaram em alto e bom som a minha chegada. Eles não podiam mais me
ignorar, mas não podiam parar a cerimônia, vi que estavam em conflito, eu não
poderia continuar ali, seria uma ofensa a Deusa, além do mais sabiam que eu era
abençoado e o preferido de Tari. Chamaram o guarda para perto do chefe mais
velho das tribos e pediram-lhe para encaminhar-nos para dentro do templo. Foi
um alivio geral e todos se curvaram para mim em minha passagem. O velho homem
era o único que poderia ser dispensado da cerimônia. Além do mais, eu vira
apenas a distribuição dos adornos. Mal saímos do meio da turba e já começara o
festejo, duraria até o outro dia ao meio-dia quando então aconteceria a
sagração. Era um festim que envolvia uma orgia onde ninguém era de ninguém, as
pessoas atracavam-se a fazer sexo como animais no cio. Começara há duas luas e
havia o interregno da distribuição dos adornos que durava poucas horas. O jovem
era então novamente ungido em óleo e pintado de açafrão vermelho e davam-lhe
para beber e fumar da erva sagrada até a hora da sagração. A sagração começava
com o jovem completamente dopado e totalmente possuído pelo Deus era então
disputado por quem pudesse cortar um pedaço maior. Apenas os grandes primazes
ou aqueles que tivessem conseguido um adorno poderiam participar da disputa.
Não poderiam sequer tocar nos seus intestinos e órgãos internos que deveriam
ficar junto com a carcaça amarrado à arvore. A carne era então levada para cada
vila e entregue ao sacerdote que a cortava em duas porções iguais , uma
oferecida a Grande Deusa que era enterrada em lugar público, de costas e sem
vê-la, a outra cortava em pedaços iguais e dividia para cada chefe de família
que a levava para enterrar em seu terreno. Assim estava consumado o ritual. Os
restos eram deixados sobre a arvore e vigiados durante a noite e na manhã
seguinte eram queimados e as cinzas eram espalhadas pelos campos. Tudo isso
estava escrito nos templos em tabuletas e lajotas. Apenas os sacerdotes sabiam
ler e escrever, o povo não aprendia e nem entendia os símbolos. Eram mantidos
na ignorância e nem mesmo os mais proeminentes conseguiam acesso ao
aprendizado. Meu pai aprendeu porque viveu demais e me ensinou o que pode.
Aprendi o resto com o tempo que também vivi demais, os sacerdotes não se
importavam com os conhecimentos dos Meriahs. Os Daros também desistiram de
realizar minha sagração. A sagração do jovem Paunne satisfez a todos e
aparentemente a Deusa queria apenas que minha posse fosse alterada de tribo,
assim os sacerdotes diziam. Os Daros queriam uma Família Meriah como nos velhos
tempos e até mesmo reviver a vila Meriah que havia sido desaparecida.
Coseguiram uma jovem que fora criada pelos Paunnes e que se chamava Leri. Era
como eu, branca feito leite. Quando cheguei ao templo encontrei duas pessoas
lá. Uma delas, sequer sabia o que era ou o que estava fazendo ali, era um homem
enorme, loiro e de bastas cabeleiras, ele não era só enorme, era forte como um
touro e os sacerdotes queriam que eu o tomasse para ser um Meriah, havia sido
comprado dos Paunnes, junto com o jovem que havia sido sagrado. O Guerreiro
acostumou-se a idéia de que era um prisioneiro e que jamais poderia ver a
liberdade novamente. Aprendi algo de sua língua e tentei ensinar-lhe nosso
idioma. Era por demais obtuso para aprender, consegui muito facilmente aprender
seu rude idioma. Acabamos assim nos tornando amigos e até íntimos. Leri
aprendeu também a gostar dele. Era jovem ainda, vestido como nós até que se
parecia um Meriah da pele branca. Devido ao ritual da vitória eu e Leri, a
outra Meriah, acabamos nos casando e ela está grávida. Garanti pelo menos mais
48 luas para ela. Eu estava me preparando para a próxima sagração quando
surpreendentemente os chefes decidiram que o guerreiro deveria ser sagrado
naquela estação. Os sacerdotes fizeram oblações e consultas à entranhas de
animais e consentiram dizendo que a Mãe Terra aceitava o guerreiro da tribo que
a odiava. Uruk, este era seu nome,adorou tudo aquilo. Era adorado, as pessoas
lhe enviavam presentes e os sacerdotes passaram a tratá-lo como a um Deus. Ele
não entendia o que significava a sagração, teríamos ainda quatro luas até o
início do solstício da primavera quando então começaria o ciclo de duas luas da
sagração. O que queria dizer que ele teria apenas seis luas de vida. Não lhe
contei nada, adorei-o como todos deviam fazer, fiz o que ele queria e sua
vontade era uma lei. Ele ria e não entendia nada. Ele era nosso Senhor das
Feras, nosso Lingam e os sacerdotes o vestiram de mantos dourados e lhe
trouxeram o Touro Sagrado e o Tridente e assim, de tridente na mão e montado no
touro ele andava pela cidade. Foi em uma de suas andanças que a grande invasão
começou. Os guerreiros Árias irromperam pela grande cidade queimando e matando.
A comitiva entrou no Templo toda desmantelada e Uruk queria a todo custo ir de
encontro aos seus companheiros para dizer-lhes que nosso povo era pacífico. Não
teve tempo e sentiu medo por nós. Savitri, o deus dos guerreiros Árias era
vingativo, sanguinário e violento chegara e odiava nossa deusa, nossos costumes
e nosso povo. A pele escura de uma porção dos Kondias lhes transmitia a idéia
de demônios, conceito que eu tentei assimilar, me pareciam deuses que viviam
para atormentar os outros, o guerreiro não soube explicar direito. Nossa Tari
nada pode fazer contra este Deus terrível e nossa terra foi devastada, tudo
virou cinzas e as cidades destruídas. Matavam o povo aos montes, incendiavam e
queimavam tudo o que tocavam. As colheitas eram recolhidas e os silos
esvaziados e levadas embora. Foi então que nossos costumes mudaram e o povo
ficou completamente perdido e sem saber o que fazer. Todos os chefes de
famílias sobreviventes e os que nem chegaram a ser chefes pois a guerra lhes
tirara o direito de conseguir as graças da Deusa reuniram-se e resolveram fazer
a grande migração. Não havia sacerdotes, eles foram todos mortos pelos Árias e
morreram amaldiçoando, todos sendo queimados vivos em uma grande fogueira no
centro da cidade e por isso todos se voltaram para mim e rogaram para que eu
assumisse as funções de um. Eu concordei desde que assumíssemos novos costumes
dali para a frente, todos concordaram. Há uma certa condescendência por parte
de alguns chefes que antes eram animosos em relação a minha família. Deve-se ao
fato de eu de repente poder ocupar o cargo de primazia, embora não considere
este cargo melhor. É estranha a animosidade das pessoas. Algumas são
declaradas, outras têm um certo modo de tentar nos menosprezar sem que estejam
dizendo qualquer coisa. “É brincadeira”. É o que se tem que pagar em troca das
boas relações. Somos apenas dez famílias e três chefes. Eu assumi a chefia de
minha família e do guerreiro. Tenho agora dois filhos, um casal e o primogênito
é o mais perfeito Kondia que já vi. A Menina a verdadeira Tari em pessoa. O
Guerreiro casou com minha filha e tiveram mais três filhos, que mistura bonita
ficou, às vezes me admira a criatura humana em sua capacidade de ser bela.
Então lembrei das meninas que procuravam a beleza e não a viam em parte alguma.
Era parte de nossa sociedade impor a beleza dos Meriahs como perfeitos e
desejáveis e por isso a diversidade acabou sendo considerada feia. Todos se
admiram e dizem que a Deusa realmente nos abençoou e que desejava realmente a
nossa migração. Nas outras famílias têm nascido muitas crianças, todas
saudáveis e fortes com os cuidados de higiene e limpeza que Leri ensina as
outras mães. Tem um chefe que se preocupa comigo e vive me incentivando a tomar
algumas atitudes em relação às tribos, ele acha que eu devo mudar. Eu mudei meu
visual, isto eu sei, deixei de ser Meriah quando resolvi assumir a migração,
isto eu sei, muitas pessoas repararam, O que estaria ele querendo fazer? Como
poderia acabar com toda aquela indiferença e apatia? Resolvi então que devíamos
fazer uma nova civilização e procurar novas terras. Todos os chefes se reuniram e apenas dois além de mim concordaram
em ir. Os dois que escolheram ir resolveram me eleger o primaz. Todos tinham
optado em seguir a migração de comum acordo e resolveram esquecer os costumes
antigos e adquirir outros novos. Como conseguir novos costumes sem uma
tradição? O que cultuar e o que manter do antigo? Alguém deveria decidir, antes
era tudo decidido pelos rituais e pelas famílias primazes, agora éramos apenas
três e além do mais uma família de Meriahs chefiado por alguém que nem sabia
direito os costumes. Vivera a maior parte de sua vida apenas lendo e escrevendo
os costumes sem vivenciá-los. Apenas deixamos as sagrações de lado a princípio
e eliminamos a figura dos sacerdotes de nosso meio. Para culminar os outros
dois chefes fizeram as famílias de suas tribos aceitarem a minha primazia. Como
mudaria, isto ficaria para decidirmos mais tarde, talvez nunca, pensei, talvez
iniciasse um novo costume de primazia por hereditariedade e meu filho a
herdasse. Encontrei o guerreiro olhando ao longe, além das montanhas. Ele ficou
sério e perguntou se eu queria mesmo afastar-me das terras de Tari. “Ela agora
é Kali”. Ela era a vencedora, mesmo sendo uma corruptela do nome de nossa Deusa
dado pelos vencedores seria este o nome da Deusa dali para a frente. Savitri, o
Deus Guerreiro derrotara Tari e tomara todas suas terras e até mesmo seus
sacerdotes e rituais e mudara seu nome. Pensei na Deusa, ela sempre foi minha
mãe, e mesmo assim sempre acreditei em sua existência. Enquanto ela era Tari a
respeitara, era uma força que movia o povo e os fazia feliz, mas aquela nova
Kali dos guerreiros era por demais sanguinária e exigia muito em troca de sua
proteção. “Sem dúvida”, respondi, “vamos continuar e quem quiser ficar pelo
caminho que fique”. Assim seguimos para Oeste até chegar a este grande rio onde
nos instalamos e iniciamos uma nova civilização