(Tradução de Guilherme de
Almeida)
Personagens: Inês
Garcin
O
criado
Garcin, o criado do andar. Um salão
Garcin (que
entra e olha em torno) - Pois é...
Criado - Pois é.
G - Então é assim...
C - É assim.
G - Acho que com o tempo a gente se acostuma com os
móveis.
C - Isso depende das pessoas.
G - Será que todos os quartos são iguais?
C - Que idéia! Recebemos chineses, hindus... Que
quer que eles façam com uma poltrona Segundo Império?
G - E eu? Que quer que eu faça? Sabe quem era eu? Ora! Isso não tem importância. O que é fato
é que sempre vivi no meio dos móveis, de que não gostava, e de situações
falsas. Achava isso adorável. Que tal; uma situação falsa numa sala de jantar a
Luis Felipe?
C - Vai ver: também não ficará mal num salão Segundo
Império.
G - Ah! Bom, bom, bom... (Olha em torno): Em todo caso, por essa eu não esperava... Mas não
me diga que não sabe o que se diz por lá!
C - Sobre o quê?
G - Quer dizer... (Num gesto vago e largo):
Sobre isso tudo.
C – Acredita nessas tolices? Gente que nunca pôs os pés aqui. Se ao menos
já tivessem estado por aqui...
G – É mesmo. (Ambos
riem. Garcin fica sério de repente) – Onde estão as estacas?
C – O quê?
G – As estacas, as grelhas, os funis de couro...
C – Está brincando?
G (Silêncio) - Como? Ah... bem... Não, não estava brincando. (Silêncio. Anda um pouco): Nem espelhos,
nem janelas, naturalmente. Nada que seja frágil. (Com
súbita violência): E por que me tomaram a escova de dentes?
C – Aí está a dignidade humana que volta. É
formidável.
G – (Batendo com
raiva na poltrona) – Nada de formalidades comigo. Reconheço minha posição,
mas não admito que...
C – (Cortando)
– Está bem, desculpe. Mas, o que quer? Todos os fregueses fazem a
mesma pergunta. Mal chegam e querem saber: “Onde estão as estacas”? Garanto que nesse instante nem estão
pensando em fazer sua toilette.
Depois, ficam mais calmos, e aí vem a escova de dentes. Mas, pelo amor de Deus,
pense um pouco. Afinal de contas, permita que eu lhe pergunte: por que escovar
os dentes?
G – (Calmo e
sossegado) – É mesmo. Por quê? (Olha em torno) – E por que olhar nos espelhos? Ao passo que esse bronze, felizmente....
Creio que há certos momentos em que seria capaz de olhar firme. De olhar firme,
hein? Ora, ora! Não há nada que ocultar: diga-lhe
que conheço bem minha situação. Quer que lhe conte como essas coisas se passam? O sujeito sufoca, mergulha, afoga, fica
apenas com os olhos fora d’água, e o que é que vê? Um bronze de Barbedienne.
Que pesadelo! Com certeza proibiram você de me responder? Não insisto. Mas não se esqueça de que
ninguém me pilha assim à toa. Não vá se gabar de me haver surpreendido. Não sei
encarar a situação de frente. (Continua a
andar): Então, nada de escovas de
dente. Nada de cama também. Porque não se dorme nunca, não é isso?
C – Ora essa!
G – Eu era capaz de apostar. Por que essa gente
havia de dormir? O sono ataca por trás das
orelhas. Sente-se olhos se fechar, mas por que dormir? A gente se senta no sofá e psssst... Adeus
sono! Então, esfrega os olhos, levanta-se e tudo recomeça.
C - Como o senhor é romanesco!
G – Cale-se! Não vou gritar, nem gemer, mas quero
encarar a situação de frente. Não quero que ela se atire sobre mim por trás,
sem que eu possa reconhecê-la. Romanesco? Então é que não se tem
mesmo necessidade de sono. Por que dormir, se não se tem sono? Ótimo. Espera, espera aí. Por que é que há
de ser doloroso, por que é que há de ser forçosamente doloroso? Já sei: é a vida sem interrupção.
C – Que interrupção?
G – (Remedando-o):
Que interrupção? (Desconfiado): Olhe bem para mim! Eu sabia. Aí está o que explica a
indiscrição grosseira e insustentável do seu olhar. De fato, estão atrofiadas.
C – Do quê o senhor está falando?
G – De suas pálpebras. Nós... nós batíamos as
pálpebras. Chamava-se a isso piscar. Um
pequeno relâmpago negro, uma cortina que cai e se ergue: deu-se a interrupção.
Os olhos se umedecem, o mundo se aniquila. Não pode imaginar como era
refrescante! Quatro mil repousos por hora. Quatro mil pequenas evasões. Quatro
mil, digo eu... Como é? Então, vou viver sem pálpebras? Não se faça de bobo. Sem pálpebras, sem
sono, é a mesma coisa. Nunca mais hei de dormir... Como poderei me tolerar? Trate de responder, faça um esforço! Tenho
um caráter implicante, como vê, e tenho o costume de implicar comigo mesmo.
Mas... mas, não posso estar implicando sem parar. Por lá, havia as noites. Eu
dormia. Tinha o sono leve. Em compensação, sonhava coisas simples. Havia uma
campina. Uma campina, nada mais. Eu sonhava que estava passeando por ela. É de
dia?
C – Como vê, as lâmpadas estão acesas.
G – De fato. É esse o dia de vocês. E lá fora?
C – (Estupefato):
Lá fora?
G – Lá fora, do outro lado dessas paredes...
C – Há um corredor.
G – E no fim do corredor?
C – Há outros quartos, outros corredores e escadas.
G – E que mais?
C – Nada mais.
G – Você naturalmente tem um dia de folga. Aonde costuma ir?
C – Em casa de meu tio, que é chefe dos criados, no
terceiro andar.
G – Eu devia ter desconfiado. Onde está o
interruptor da luz?
C – Não existe.
G – Como é? Não se pode apagar?
C – A gerência pode cortar a corrente elétrica. Mas
não me lembro se já aconteceu isso neste andar. Temos eletricidade à vontade.
G – Muito bem. Quer dizer que a gente tem de viver
de olhos abertos?
C – (Irônico):
Viver...
G – Não vá me aborrecer agora por uma questão de vocabulário.
De olhos abertos. Para sempre. Será pleno dia em meus olhos. E nada na minha
cabeça. (Pausa). E se eu atirasse
esse bronze contra a lâmpada elétrica? Será que ela se apagaria?
C – É muito pesado.
G – (Tomando o
bronze entre as mãos e tentando erguê-lo): Tem razão... É muito pesado! (Silêncio).
C – Se não precisa mais de mim, vou me retirar.
G – (Sobressaltado):
Vai-se embora? Até logo. (O criado chega até à porta): Espere! (O criado se volta): É uma campainha
isso aí? (O criado faz sinal que sim): Posso tocar quando quiser e você tem
obrigação de atender?
C – Em princípio, sim. Mas a campainha é caprichosa.
Há qualquer coisa errada com o mecanismo.
G – (Vai até à
campainha, aperta o botão. Ouve-se o tocar). Funciona!
C – (Espantado):
Funciona! (Toca também): Mas não se
entusiasme muito. Isso não dura. Então, às suas ordens!
G – (Num gesto
para detê-lo): Eu...
C – O que há?
G – Não, não é nada. (Caminha pela sala): Isso... O que é?
C – Não está vendo? Um corta-papel.
G – Há livros por aqui?
C – Não!
G – Então, para quê isso? (O
criado dá de ombros): Está bem. Pode se retirar. (O criado sai).
Cena 2
Garcin está só. Vai até o bronze e o apalpa. Senta-se. Levanta-se. Vai
até à campainha e aperta o botão. Ela não toca. Experimenta dois ou três vezes,
Cena 3
C – (A
Garcin): O senhor chamou?
G – Não!
C – (Dirigindo-se
a Inês): Está em sua casa, minha senhora. (Silêncio): Se tiver alguma pergunta a fazer... (Inês não fala. O criado está desapontado).
Os fregueses geralmente gostam de pedir informações... Não importa... Além do
mais, quanto à escova de dentes, a campainha e o bronze de Barbedienne, este
senhor está a par de tudo e poderá informar tão bem quanto eu. (Sai. Silêncio. Garcin não olha para Inês.
Inês observa em redor e dirige-se bruscamente a Garcin):
I – Onde está Florence? (Silêncio de Garcin). Pergunto-lhe: Onde está Florence?
G – Não sei de nada.
I – Foi só isso que conseguiu descobrir? A tortura pela ausência? Pois falhou. Florence era uma bobinha e não
me faz falta.
G – Queira perdoar-me. Quem está pensando que eu sou?
I – O senhor ? O senhor é o carrasco.
G – (Sobressalta-se
e põe-se a rir): É um equívoco engraçadíssimo. O carrasco! É boa! A senhora
entrou, olhou para mim e pensou: é o carrasco. Que extravagância! O criado é ridículo:
deveria ter-nos apresentado. O carrasco! Eu sou Joseph Garcin, publicitário e
homem de letras. O fato é que estamos hospedados no mesmo estabelecimento,
senhora...
I – (Secamente):
Inês Serrano. Senhorita.
G – Muito bem. Perfeito. Derreteu-se o gelo. Quer
dizer que me acha com cara de carrasco? Quer fazer o favor de me
explicar como se reconhecem os carrascos?
I – Têm cara de quem tem medo.
G - Medo? É esquisitíssimo! Medo de
quem? De suas vítimas?
I – Ora! Sei bem o que estou dizendo. Espelho não me
falta.
G - Espelho? (Olha em volta): Que maçada! Tiraram daqui tudo quanto pudesse se
parecer com um espelho. (Pausa). Em
todo caso, posso lhe garantir que não tenho medo. Não considero levianamente a
situação, e estou perfeitamente cônscio de sua gravidade. Mas não tenho medo.
I – (Dando de
ombros): Isso é com o senhor. Será que o senhor sai de vez em quando para
um passeio?
G – A porta está trancada.
I – É pena.
G – Compreendo muito bem que minha presença a
aborrece. E se dependesse de mim, preferiria estar só. Tenho que pôr a vida em
ordem e preciso de sossego. Mas tenho certeza de que nos acostumaremos um com o
outro. Não falo, quase não me movo, e faço pouco barulho. Apenas, se me atrevo
a dar um conselho, será bom conservarmos entre nós uma extrema polidez. Será nossa melhor defesa.
I – Não sou bem educada.
G – Eu o serei por nós dois. (Um silêncio. Garcin está sentado no sofá. Inês, andando de um lado
para outro).
I – (Olhando-o):
Essa boca.
G – (Voltando
a si): Como é?
I – Não é capaz de fazer parar sua boca? Ela gira como um pião debaixo do nariz.
G – Desculpe. Não tinha percebido.
I – É justamente o que estou censurando. (A boca é o tique de Garcin). De novo!
Pretende ser bem educado e deixa sua cara assim, à toa? O senhor não está sozinho e não tem o
direito de me impor o espetáculo do seu medo.
G – (Ergue-se
e se dirige a ela): E a senhora? Não tem medo?
I – Para quê? O medo era bem antes,
quando tínhamos esperança.
G – (Com
doçura): Não há mais esperança, mas estamos sempre antes. Ainda não começamos
a sofrer.
I – Bem sei. (Um
tempo): Então, o que é que vai acontecer?
G – Não sei. Estou esperando.
(Silêncio.
Garcin vai se sentar de novo. Inês continua a andar. Garcin torce a boca e, ao
olhar para Inês, esconde o rosto nas mãos. Entra Estelle e o criado).
Cena 4
E – (Olha para
Garcin, que não ergueu a cabeça, e a ele se dirige): Não! Não, não erga a
cabeça! Eu sei que está escondendo a cabeça nas mãos. Sei que não tem cara! (Garcin tira as mãos do rosto): Ah... (Um tempo. Surpreendida): Não conheço o
senhor!
G – Não sou carrasco, minha senhora.
E – Não pensei que fosse o carrasco. Eu... eu pensei
que alguém quisesse me pregar uma peça. (ao criado): Quem mais está esperando?
C – Ninguém mais.
E – (Aliviada):
Ah! Então vamos ficar só nós três... O senhor, a senhora, e eu? (Põe-se
a rir).
G – (Secamente):
Não vejo razão para rir.
E – (Ainda
rindo): E esses sofás... são medonhos! E vejam como estão colocados! Parece
que é dia de Ano Novo e que eu estou visitando minha tia Marie. Cada qual tem o
seu, imagino. É este o meu? (Para o criado): Eu nunca seria capaz de sentar-me nele: é uma
catástrofe. Não combina absolutamente com minha roupa! (Ela está de azul, o sofá é verde).
I – Quer ficar com o meu?
E – O sofá “Bordeaux”? A senhora é muito amável,
mas isso de pouco adiantaria. Não. O que fazer? Cada qual com o que é seu.
Coube-me o verde: fico com ele. (Um
tempo): O único que combinaria é o desse senhor. (Um silêncio).
I – Está ouvindo, Garcin?
G – (Sobressaltado):
O... sofá. Oh, perdão! (Levanta-se):
É seu, minha senhora.
E – Obrigada. (Tira
o “manteau” e o deixa sobre o sofá. Um tempo). Já que temos de morar
juntos, vamos nos apresentar. Chamo-me Estelle Rigault. (Garcin se inclina e vai se apresentar, quando Inês se interpõe):
I – Inês Serrano. Prazer em conhecê-la.
G – (Inclina-se
de novo): Joseph Garcin.
C – Precisam ainda de mim?
E – Não. Pode ir. Se precisar, chamarei. (O criado sai).
Cena 5
I – A senhora é muito bonita. Eu queria Ter flores
para lhe desejar boas-vindas.
E - Flores? É mesmo. Gostava muito de
flores. Aqui, elas murchariam. Faz tanto calor! Ora, o principal, não acha?, é conservar o bom humor. A senhora está...?
I – Sim, a semana passada. E a senhora?
E - Eu? Ontem. A cerimônia ainda
não acabou. (Fala com muita naturalidade,
como se estivesse vendo o que descreve): O vento desmancha o véu de minha
irmã. Ela faz o que pode para chorar. Vamos, vamos! Mais um esforço. Aí está:
duas lágrimas, duas lágrimas pequenas, brilhando sobre o crepe. Olga Jardet...
está muito feia essa manhã. Sustem minha irmã pelo braço. Não chora por causa
do rimmel. e devo confessar que eu,
no seu lugar... era minha melhor amiga.
I – A senhora sofreu muito?
E – Não. Estava embrutecida.
I – O que foi que...?
E – Uma pneumonia. Pronto. Acabou-se. Vão-se embora
todos. Bom dia. Bom dia. Quantos apertos de mão! Meu marido ficou em casa: está
doente de pesar. (A Inês): E a
senhora?
I – Gás.
E – E o senhor aí?
G – Doze balas no peito. (Gesto espantado de Estelle): Desculpe-me. Não sou um morto de boa
sociedade.
E – Oh! Meu senhor, se quisesse deixar de empregar
palavras tão cruas assim! É... é chocante. Afinal de contas, o que significa
isto? Quem sabe se nunca estivemos tão vivos
quanto agora? Quando for, preciso
referir-me a este estado de coisas, proponho que nos chamemos ausentes, será mais correto. O senhor:
há quanto tempo está ausente?
G – Há um mês, mais ou menos.
E – De onde é o sr.?
G
– De Rien.
E – Eu, de Paris. Ainda tem alguém por lá?
G – (Cabisbaixo):
Minha mulher. Ela veio ao quartel, como todos os dias, não a deixaram entrar.
Olha entre as barras das grades. Ainda não sabe que estou ausente, mas desconfia. Vai-se embora agora. Está toda de preto.
Tanto melhor: não precisará mudar de roupa. Ela não chora. Não chorou nunca. O
sol está lindo e ela está toda de preto na rua deserta, com aqueles seus
grandes olhos de vítima. Ah, ela me irrita!
I – (Silêncio.
Garcin vai se sentar no sofá do meio e esconde a cabeça entre as mãos. Inês
fala): Estelle!
E – Senhor, senhor Garcin.
G – Senhora!...
E – O sr. se sentou no meu sofá.
G – Perdão. (Levanta-se).
E – Parece distraído.
G – Estou pondo minha vida em ordem. (Inês começa a rir): Os que riem fariam
melhor se me imitassem.
I – Minha vida está
G - Verdade? E a senhora acha isso tão
simples? (Passa a mão pela testa): Que calor! Dão-me licença? (Faz
menção de tirar o paletó).
E – Ah, não! (Com
mais doçura): Isso não. Tenho horror a homens em mangas de camisa.
G – (Vestindo
de novo o paletó): Está bem... Passava as noites na sala da redação. Fazia
sempre um calor de esterco. Faz um calor de esterco. É noite.
E – É verdade! Já é de noite. Olga se despe. Como o
tempo passa depressa na terra!
I - É de
noite. Lacraram a porta do meu quarto. E o quarto está vazio, no escuro.
G – Eles puseram os paletós no encosto das cadeiras
e enrolaram as mangas da camisa acima dos cotovelos. Há um cheiro de homem e de
tabaco. (Silêncio). Eu gostava de viver no meio de homens em
mangas de camisa.
E – (Seriamente):
Pois é, não temos o mesmo gosto. É tudo o que isso quer dizer. (A Inês): E a sra? Gosta disso? De homens em mangas de
camisa?
I – Em mangas de camisa, ou não...
não gosto de homens.
E – (Com
espanto, olha para os dois): Mas, por que... por que nos puseram juntos?
I – (Num grito
abafado): Que está dizendo?
E – Olho para os dois, e penso que temos de morar
juntos... Eu esperava encontrar aqui amigos, família...
I – Um excelente amigo com um buraco no meio da
cara.
E – Esse também. Dançava tango como um profissional.
Mas nós... nós... porque foi que nos juntaram?
G – (Inês ri):
Ora, por acaso. Eles vão arrumando a gente onde podem, por ordem de chegada. (A Inês): Por que está rindo?
I – Porque o sr. me diverte com essa história de
acaso. Será que o sr. tem assim tanta necessidade de apurar as coisas? Eles não fazem nada por acaso.
E – (Com
timidez): Mas, quem sabe se já nos encontramos antes?
I – Nunca. Eu não a teria esquecido.
E – Então, quem sabe, temos relações comuns? Não conhece os Dubois-Seymour?
I – Acho que não.
E – Recebem todo mundo.
I – E o que fazem?
E – (Com
surpresa): Nada... Têm um castelo em Corrèze, e...
I – Eu... eu era empregada dos correios.
E – (Um
pequeno recuo de corpo): Ah? Então, explique-me... E o
senhor, senhor Garcin?
G
– Nunca saí de Rien.
E – Nesse caso o sr.
tem toda a razão: foi o acaso que nos juntou.
I – O acaso?Então é por acaso que estes
móveis estão aqui? É por acaso que o sofá da
direita é verde e o da esquerda é “bordeaux”? Por acaso, não é? Pois experimente trocá-los de lugar e verão
o que acontece. E este broze, também é um acaso? E este calor? (Silêncio);
O que lhe digo é que tudo isso foi
preparado com carinho, nos mínimos pormenores. Este aposento estava à nossa
espera.
E – Mas, como assim? Tudo aqui é tão feio, tão
duro, tão anguloso! Eu tinha horror aos ângulos.
I – (Erguendo
os ombros): Pensa, então, que eu vivia num salão Segundo Império?
E – (Um tempo
e silêncio): Então... é tudo previsto?
I – Tudo. E nós combinamos com isso tudo.
E – Não ser por um acaso que a sra. está à minha
frente? Que é que eles esperam?
I – Não sei, mas esperam.
E – Não posso tolerar que esperem qualquer coisa de
mim. Isso me dá logo vontade de fazer o contrário.
I – Pois então faça. Faça! Nem ao menos sabe o que
querem!
E – (Batendo o
pe). É insuportável. E por causa de vocês dois, qualquer coisa tem de me
acontecer! (Olha-os): Por causa de
vocês dois. Havia rostos que falavam logo. Os seus não dizem nada.
G – (Bruscamente,
a Inês): Vamos! Por que é, então, que estamos juntos? Já disse muita coisa: vá até o fim!
I – (Surpresa):
Não sei de nada disso. Não sei absolutamente nada.
G – Precisa saber! (reflete).
I – Se um de nós tivesse ao menos a coragem de
dizer...
G - ...o quê?
I – Estelle!
E – Que é?
I – O que foi que a senhora fez? Por que a mandaram para cá?
E – (Com
vivacidade): Mas eu não sei! Não sei absolutamente nada. Pergunto-me mesmo
se isto tudo não será um equívoco. (A
Inês): Nada de risadas. Penso só na quantidade de pessoas que... que se ausentam cada dia. Chegam aqui aos
milhares e têm de tratar com subalternos, com empregados sem instrução. Como
quer que não haja equívoco? Não dê risadas, não. (A Garcin): E o senhor? Diga alguma coisa. Se se
enganaram no meu caso, também podiam ter-se enganado no seu. (A Inês): E no seu também. Não será
melhor pensar que estamos aqui por equívoco?
I – É tudo que nos tem a dizer?
E – Que mais quer saber? Não tenho o que esconder. Eu era órfã e
pobre e educava meu irmão mais moço. Um velho amigo de meu pai me pediu
G – Claro que não... E a sra., acha que seja um
crime viver segundo seus princípios?
I – Quem poderia censurá-lo por isso?
G – Eu dirigia um jornal pacifista. Rebentou a
guerra. Que fazer? Todos os olhos estavam
grudados em mim. “Vamos ver se ele terá
coragem!” Pois tive coragem: cruzei
os braços e eles me fuzilaram. Que crime
há nisso? Que crime?
E – (Pousando-lhe
a mão no ombro): Não há crime. O senhor é...
I – (Concluindo
com ironia): Um herói. E sua mulher, Garcin?
G – Que é que tem? Tirei-a da sarjeta.
E – (A Inês): Está
vendo? Está vendo?
I – Estou vendo... Para quem está representando esta
comédia, se estamos entre nós?
E – (Com
insolência): Entre nós?
I – Entre assassinos. Estamos no inferno, minha
filha, e aqui não pode haver erros, e não se condena ninguém à toa.
G – Cale-se!
I – No inferno! Condenados! Condenados!
E – Cale-se! Faça o favor de calar-se. Proíbo-a de
empregar expressões grosseiras!
I – Condenada, a santinha. Condenado, o herói sem
mácula. Tivemos nosso momentos de prazer, não é verdade? Houve pessoas que sofreram por nós até à
morte, e isso nos divertia bastante. Agora temos de pagar.
G – (Erguendo
a mão): Vai calar-se ou não?
I – (Encarando-o
sem medo, mas com enorme surpresa): Ah! (Um
tempo). Esperem aí! Agora compreendo porquê nos puseram juntos...
G – Tome cuidado com o que vai dizer.
I – Vão ver como é tolo. Tolo como tudo. Não. Não
existe tortura física, não é mesmo? E, no entanto, estamos no
inferno. E ninguém mais chegará. Ninguém. Temos de ficar juntos, sozinhos, até
o fim. Não é isso? Quer dizer que há alguma
coisa que faz falta aqui: o carrasco!
G – (A meia
voz): ...bem sei...
I – Pois é, fizeram uma economia de pessoal. Só
isso. São os próprios fregueses que se servem, como nos restaurantes
cooperativos.
E – Que quer dizer?
I – Cada um de nós é o carrasco para os outros dois.
(Um tempo. Eles ruminam a idéia).
G – (Com voz
doce): Não serei o carrasco de ninguém. Não lhes desejo mal e nada tenho a
ver com as senhoras. Nada. É muito simples. Vejam só: cada qual no seu canto:
esse é que é o jogo. A senhora aqui, a senhora ali, eu lá. E silêncio. Nem um
pio. Não é difícil, não é mesmo? Cada um de nós tem muito
que se incomodar consigo mesmo. Acho que eu seria capaz de passar dez mil anos
sem falar.
E – É preciso que eu me cale?
G – É, sim. E... e estaremos salvos. Calar-se. Olhar
em si mesmo, jamais erguer a cabeça. Estão de acordo?
I – De acordo.
E – (Hesita um
pouco). ...de acordo!
G – Então, adeus! (Dirige-se ao seu sofá e põe a cabeça entre as mãos. Silêncio. Inês
põe-se a cantar para si mesma).
I – Na rua das
capas-brancas
Eles plantaram palancas
E ergueram com alavancas
A força feita de trancas
Na rua das capas-brancas...
(Nesse meio tempo Estelle empoa o rosto e
pinta os lábios. Ao se empoar, procura por todos os lados, inquietamente.
Remexe para um lado e outro sua bolsa. Volta-se para Garcin):
E – O sr. terá um espelho? (Garcin
não responde). Um espelho, um espelhinho de bolso, não importa. (Não responde). Se me deixam sozinha,
pelo menos arranjem-me um espelho. (Garcin
continua com a cabeça entre as mãos. Não responde).
I - (Com
solicitude): Tenho um espelho em minha bolsa. (Procura-o
na bolsa com raiva): Não está mais. Devem Ter ficado com ele no depósito.
E – Que aborrecimento!... (Um tempo. Ela fecha os olhos e cambaleia. Inês corre para
ampará-la).
I – Que tem?
E – (Abre os
olhos). Sinto uma coisa esquisita. (Ri
e se apalpa). Com a sra. não é assim também? Quando não me vejo, por
mais que me apalpe, fico na dúvida se existo mesmo de verdade.
I – Tem sorte. Eu sempre me sinto interiormente.
E – Ah, sim, interiormente... Tudo o que se passa
nas cabeças é tão vago que me dá sono. (Tempo).
Meu quarto tem seis espelhos grandes. Estou vendo todos. Estou vendo. Mas eles
não me vêem. Eles refletem a penteadeira, o tapete, as janelas... Como é vazio
um espelho em que não estou! Quando eu falava, sempre dava um jeito para que
houvesse um espelho em que eu pudesse me ver. Eu falava e me via falar. Eu me
via como os outros me viam. Por isso, ficava acordada. (Com desespero): Meu rouge!
Tenho certeza de que pintei mal. Mas não
posso ficar sem espelho por toda a eternidade!
I – Quer que eu lhe sirva de espelho? Venha, convido-a a vir à minha casa.
Sente-se aí no meu sofá.
E – (Mostrando
Garcin): Mas...
I – Façamos de conta que ele não existe.
E – Nós vamos nos fazer mal. Foi a senhora quem
disse.
I – Acha que eu posso querer o seu mal?
E – Sabe-se lá!
I – Você é quem vai me fazer mal. Mas, que importa? Já que é preciso sofrer, que seja por você.
Sente-se. Chegue mais perto. Mais. Olha nos meus olhos: está se vendo neles?
E – Estou tão pequenininha. Vejo-me muito mal. Muito
mal!
I – Mas eu vejo você inteirinha. Faça-me perguntas.
Nenhum espelho será mais fiel! (Estelle,
entediada, volta-se para Garcin, como para pedir auxílio).
E – Senhor, por favor, não estamos incomodando com
nossa tagarelice? (Garcin não responde).
I – Deixe-o
E – Pintei bem meus lábios?
I – Deixe-me ver... Não. Não muito bem.
E – Bem que eu desconfiava. Felizmente (lança um olhar a Garcin) ninguém me
viu. Vou pintar de novo.
I – É melhor. Não. Acompanhe o desenho dos lábios.
Deixe que eu ajude. Assim, assim. Está bem.
E – Tão bem como eu estava quando cheguei?
I – Melhor. Mais pesado, mais cruel. Essa boca de
inferno...
E – Está bem, mesmo? Como é desagradável não
poder julgar-me por mim mesma. A senhora jura que está bem mesmo?
I – Não quer me tratar por “você”?
E – Você jura que estou bem?
I – Você é linda!
E – Mas será que a sra. tem bom gosto? O meu gosto? Como é desagradável, como é desagradável!
I – Tenho, sim, o seu gosto, porque você me agrada.
Olhe bem para mim. Sorria. Eu também não sou feia. Será que não valho mais do
que um espelho?
E – Não sei. A sra. me intimida. Minha imagem, nos
espelho, era domesticada. Eu a conhecia tão bem!... Eu vou sorrir; meu sorriso
irá até o fundo das suas pupilas, e Deus sabe o que será dele!
I – E quem impede você de me domesticar? (Olham-se.
Estelle sorri meio fascinada): Não quer mesmo me tratar por “você”?
E – Custa-me tratar as mulheres por “você”.
I – E particularmente as empregadas dos correios,
imagino... Que é que você tem aí no rosto, embaixo? Essa mancha vermelha...
E – (Num
sobressalto): Mancha vermelha? Que horror! Onde?
I – Aqui. Aqui. Eu sou o espelho que atrai as
cotovias, minha pequena cotovia, pilhei-a! Não há vermelhidão alguma! Nem
sinal, hein? Que tal se o espelho
começasse a mentir? Ou se fechasse os olhos, se
não quisesse olhar, que faria você de toda essa beleza? Não tenha medo! Preciso olhar para você.
Meus olhos ficarão sempre abertos... sempre abertos... e eu serei boazinha. Mas
tem de dizer “você”.
E – (Um
tempo): ...você gosta de mim?
I – Muito!
E – (Um tempo.
Designa Garcin com a cabeça): Eu queria que ele também olhasse para mim.
I – Sim! Porque é homem! (A Garcin): O sr. ganhou. (Garcin
não responde). Olhe para ela de uma vez! (Não responde). Basta de comédia. O sr. não perdeu uma palavra do
que dizíamos.
G – (Erguendo
bruscamente a cabeça): Diz bem! Nem uma palavra. Por mais que enterrasse os
dedos nos ouvidos, as senhoras falavam dentro de minha cabeça. Quer me deixar
em paz, agora? Não tenho nada com a
senhora!
I – E com essa pequena, tem alguma coisa? Percebi sua manobra; foi para interessá-la
que o senhor tomou esses ares de importância!
G – Já disse que me deixe. Alguém no jornal está
falando de mim. Quero ouvir. Essa pequena não me interessa, pode ficar
tranqüila.
E – Obrigada.
G –Eu não pretendia ser grosseiro...
E – Grosseirão! (Um
tempo. Estão de pé, uns diante dos outros).
G – Está aí! Eu tinha pedido que se calassem!
E – Foi ela quem começou. Veio me oferecer o
espelho, sem que eu tivesse pedido nada.
I – Nada. Apenas se esfregava nele e fazia tudo para
ele olhasse para você.
E – E daí?
G – Estão loucas? Não estão vendo onde vamos
parar? Calem-se de uma vez! (Um tempo). Vamos nos sentar de novo, calmamente, fechar os olhos e
cada qual procurará esquecer a presença do outro! (Um tempo. Ele se senta de novo. Elas voltam, hesitantes, para seus
lugares).
I – (Volta-se
bruscamente): Ah, esquecer! Que infantilidade! Eu o sinto até nos meus
olhos. Seu silêncio grita em minhas orelhas. Pode soldar a boca, pode cortar a
língua. Será que por isso o sr. deixaria de existir? Faria parar esse seu pensamento que estou
ouvindo, que faz tic-tac como um despertador? E sei que o sr. ouve o meu.
É inútil s encolher todo no sofá. O sr. está por toda parte, os sons me chegam
sujos, porque o sr. os ouvir quando passavam. O sr. roubou meu próprio rosto,
até. O sr. conhece meu rosto e eu não. E ela? Ela! O sr. a roubou de mim!
Se estivéssemos sozinhas, pensa que ela me trataria como me trata? Não, não! Tire essas mãos da cara. É cômodo,
não é? Mas eu não deixo! O sr. ficaria aí,
insensível, mergulhado em si mesmo, como um Buda. Eu, de olhos fechados,
sentindo que ela lhe dedica todos os ruídos de sua vida, até mesmo o farfalhar
do seu vestido, e lhe manda sorrisos que o sr. não vê... Nada disso! Quero
escolher meu inferno: olhar para o sr.
sem assombro e lutar de rosto nu!
G – Está bem. Estou vendo que era preciso chegar a
esse ponto. Eles manobram conosco, como se fôssemos criancinhas. Se me tivessem
alojado entre os homens... os homens sabem se calar. Mas não se deve exigir
muito. (Aproxima-se de Estelle e lhe
acaricia o queixo). Então, menina, sou do seu gosto? Dizem que você estava de olho em mim...
E – Não me toque!
G – Ora! Vamos ficar à vontade. Eu gostava muito de
mulheres, sabe? E elas de mim, muito. Não
temos nada mais a perder. Polidez, por que? À vontade! Daqui a pouco,
estaremos nus!
E – Deixe-me!
G – Nus. Ah, eu avisei
I – Já sabe. Agora já sabe.
G – Enquanto cada um de nós não confessar porque foi
condenado, nada saberemos. Você aí, a loira, comece! Por que foi? Diga o porquê. Sua fraqueza pode evitar
catástrofes. Quando conhecermos nossas sujeitas todas... Vamos, por que foi?
E – Digo que ignoro tudo. Eles não quiseram me
contar.
G – Eu sei. A mim também não quiseram responder. Mas
eu me conheço. Tem medo de ser a primeira a falar? Pois bem, eu começo. (Silêncio). Eu não sou boa coisa...
I – Está certo. Sabe-se que o sr. desertou.
G – Deixe disso. Não fale isso nunca. Estou aqui
porque torturei minha mulher. Apenas isso. Durante cinco anos. Naturalmente,
ela ainda está sofrendo. Lá está ela: assim que falo dela, começo a vê-la. É
Gomes que me interessa e é ela que vejo. Onde está Gomes? Durante cinco anos, sabem? Eles lhe entregaram minhas roupas; ela está
sentada perto da janela e pôs meu paletó sobre os joelhos. O paletó dos doze
buracos! O sangue parece ferrugem. As bordas dos orifícios estão chamuscados.
Ah! É uma peça de museu, um paletó histórico. E dizer que eu usei aquilo! Você
vai chorar? Vai acabar por chorar? Eu entrava em casa bêbado como uma cabra,
com cheiro de vinho e de mulher. Ela me havia esperado a noite toda, e não
chorava. Nem uma palavra de censura, naturalmente. Apenas seus olhos. Seus
grandes olhos!... Não me arrependo de nada! Pagarei, mas não me arrependo. Cai
neve lá fora, mas você vai chorar, afinal? É uma mulher que tem
vocação para mártir.
I – (Quase com
doçura): Por que a fez sofrer?
G – Porque era fácil. Uma palavra bastava para
fazê-la mudar de cor. Era uma sensitiva. Ah, nem uma censura! Sou muito
implicante. Esperava, esperava sempre, mas nada. Nem um choro, nem uma censura.
Eu a tinha tirado da sarjeta, compreendem? Ela passa a mão pelo paletó
sem olhar. Seus dedos procuram os buracos, às cegas. Que é que você aguarda? Que é que você espera? Digo-lhe que não me arrependo de nada. Enfim, ela me admirava demais. Compreendem
isso?
I – Não. A mim, ninguém admirava.
G – Tanto melhor. Tanto melhor para a sra. Tudo isso
pode parecer abstrato. Pois bem, eis um caso pitoresco. Eu tinha instalado em
casa uma mulher. Que noites! Minha mulher, que dormia no primeiro andar, de
certo ouvia tudo. Era a primeira a se levantar, e como nós ficávamos deitados
até tarde, ela nos trazia café com leite na cama.
I – Cafajeste!
G – Pois é, pois é: o cafajeste bem-amado. (Parece distraído). Não é nada. É o
Gomes. Mas não está falando de mim. Um cafajeste, a sra. estava dizendo? Claro! Se não, que estaria eu fazendo aqui? E a senhora?
I – Bem... eu era o que eles chamam por lá de “uma
mulher condenada”. Jà condenada, não é verdade? Por isso, não houve grandes
surpresas.
G – E é só?
I – Não. Há também aquele caso da Florence. Mas é
uma história de mortos. Três mortos. Primeiro ele, depois ela e eu. Não sobrou
ninguém. Estou tranqüila, apenas o quarto. De tempos em tempos, vejo o quarto.
Vazio, de janelas fechadas. Arre! Afinal tiraram os lacres. “Aluga-se”... Está
para alugar. Tem um letreiro pregado na porta. É... é irrisório.
G - Três? A senhora disse três?
I – Três.
G – Um homem e duas mulheres?
I – Sim!
G - Como? (Silêncio). Ele se matou?
I - Ele? Seria incapaz disso. E não
é que não tivesse sofrido. Não. Ficou debaixo de um bonde, esmagado. Que
brincadeira: eu morava na casa deles, ele era meu primo.
G – Florence era loira?
I - Loira? (Olha para Estelle). Sabe de uma coisa? Não me arrependo de nada, mas não me agrada
contar essa história.
G – Vamos, vamos! Foi ficando com nojo dele?
I – Pouco a pouco. Uma palavra aqui, outra ali...
Por exemplo: fazia barulho quando bebia; soprava pelo nariz dentro do copo.
Coisinhas. Oh, era um coitado, vulnerável. Por que está rindo?
G – Porque eu não... eu não sou vulnerável.
I – Isso não se sabe. Eu me interessei por ela. Ela
viu isso por meus olhos. Enfim, tive de ficar com ela. Tomamos um quarto no
outro extremo da cidade.
G – E então?
I – Então, aconteceu aquele bonde... Eu dizia
sempre: está vendo, meu bem? Nós o matamos. (Silêncio). Eu sou má.
G –E eu também.
I – Não. O senhor... o senhor não é mau. É outra
coisa.
G – O quê?
I – Mais tarde eu lhe direi. Eu, sim, sou má. Quer
dizer, preciso do sofrimento dos outros para existir. Uma tocha. Uma tocha nos
corações. Quando estou sozinha, me apago. Durante seis meses, eu ardi no
coração dela: queimei tudo. Uma noite ela se levantou, foi abrir a torneira de
gás, sem que eu percebesse. Depois voltou e se deitou ao meu lado. É tudo!
G – Hum!
I – Que há?
G – Nada. Isso não está direito.
I – Pois é, não está direito. E daí?
G – Oh, tem razão. (Para Estelle): Você, agora. O que foi que você fez?
E – Já disse que não estou sabendo de nada. Por mais
que eu me pergunte...
G – Bem, então vamos ajudá-la. Aquele sujeito de
cara arrebentada, quem era?
E – Que sujeito?
G – Aquele de quem você tinha medo, quando chegou
aqui. Você sabe muito bem.
E – Era um amigo.
G – Por que tinha medo dele?
E – O sr. não tem o direito de me interrogar.
I – Foi por sua culpa que ele se matou?
E – Que absurdo! A senhora está louca!
G – Então por que é que ele me metia medo? Deu um tiro na cara, hein? Foi isso que lhe arrancou a cabeça?
E – Calem-se! Calem-se!
G – Por sua causa! Por sua causa!
I – Um tiro por sua causa!
E – Deixem-me
G – Pode ir. Não quero outra coisa. Mas o diabo é
que a porta está fechada por fora. (Estelle
aperta o botão da campainha: não toca. Inês e Garcin riem. Encostada na porta,
Estelle se vira para eles).
E – (De voz
lenta): Vocês são ignóbeis!
I – Perfeitamente ignóbeis. E daí? Então o tal sujeito se matou por sua causa.
Era seu amante?
G – É claro que era seu amante. E queria você só
para ele. Não é isso?
I – Dançava tango como um profissional, mas era pobre,
imagino!
G – (Antes, um
silêncio): ...estamos perguntando se ele era pobre!
E – Sim, era pobre.
G – Além disso, você tinha de zelar pela sua
reputação. Um dia ele chegou, suplicou e você fez troça!
I – Hein, hein, hein? Você fez troça? Foi por isso que ele se matou?
E – Era com esses olhos que você olhava para
Florence?
I – Era! (Um
tempo. Estelle começa a rir).
E – Estão completamente errados. (Ela se apruma e os enccara, encostada
sempre na porta. Num tom e provocante): Ele queria que eu tivesse um filho.
Pronto! Estão contentes?
G – E você, você não queria.
E – Não queria, mas a criança veio assim mesmo. Fui
passar cinco meses na Suíça. Ninguém soube de nada. Era uma menina. Roger
estava ao meu lado quando ela nasceu. Achava interessante ter uma filha. Eu,
não!
G – E depois?
E – Havia um balcão sobre o lado. Arranjei uma pedra
grande. Ele gritava: “Estelle, por favor, eu suplico!” Eu o detestava. Ele viu
tudo. Debruçou-se no balcão e viu os círculos concêntricos na água do lago.
G - Depois?
E – Nada mais. Voltei a Paris e ele fez o que bem
entendeu.
G – Estourou os miolos?
E – Isso mesmo. Mas não era preciso fazer isso. Meu
marido não desconfiava de nada. (Um
tempo). Tenho ódio de vocês. (Tem uma
crise de soluços secos).
G – É inútil. Aqui, as lágrimas não correm.
E – Que covarde que eu sou! Que covarde! (Um tempo). Se soubessem como tenho ódio
de vocês!
I – (Corre
para tomá-la nos braços): Coitadinha! (A
Garcin): Acabou-se o inquérito. Não adianta ficar com essa cara de
carrasco.
G – De carrasco... (Olhando em torno): Daria tudo para me ver num espelho! (Um tempo). Que calor! (Maquinalmente tira o paletó): Ah,
desculpe! (Veste-o de novo).
E – Pode ficar em mangas de camisa, agora.
G – Está bem. (Atira
o paletó sobre seu sofá). Não me queira mal, Estelle.
E – Não lhe quero mal.
I – E a mim? Você quer mal?
E - ...sim... (Silêncio).
I – (Afasta-se).
Pois é, Garcin, estamos nus. Está enxergando melhor agora?
G – Não sei. Talvez um pouquinho melhor... (Com timidez): Será que a gente não
poderia experimentar ajudar-se uns aos outros?
I – Não preciso que me ajude.
G –Inês, eles emaranharam todo o fio. Se você fizer
o menor gesto, se erguer as mãos para se abanar, Estelle e eu sentiremos o
abalo. Nenhum de nós pode se salvar sozinho.
Temos de nos perder juntos, ou nos desembaraçar juntos. Escolha. (Um tempo). Que tal?
I – Já alugaram. As janelas estão escancaradas. Há
um homem sentado na minha cama. Já alugaram. Já alugaram! Entre, entre! Não
faça cerimônia. É uma mulher. Ela se dirige a ele e pousa as mãos nos seus
ombros. Que é que estão esperando para acender a luz? Não se enxerga mais nada. Será que vão se
beijar? Esse quarto é meu, é meu!
Por que não acendem a luz? Já não posso vê-los. Que é
que estão cochichando? Será que ele vai
acariciá-la em minha cama? Ela lhe diz que é meio-dia
e que o sol está forte. Será que estou
ficando cega? Pronto, acabou-se. Não vejo
e não escuto mais. Pois é. Acho que com
a Terra está tudo acabado. Nada de álibi. (Estremece):
Sinto-me me vazia. Agora estou morta de verdade, completamente aqui. Que
estava dizendo? Falava em me ajudar, não é?
G – É.
I – A quê?
G – A estragar o joguinho deles.
I – A troco de quê?
G – Você me ajudará. É preciso muito pouco. Apenas
um pouquinho de boa vontade.
I – Boa vontade? Onde é que vou achar isso? Estou podre.
G – E eu? (Tempo). Mas e se experimentássemos assim mesmo?
I – Estou ressequida. Não posso receber nem dar.
Como quer que eu o ajude? Um galho morto: o fogo o
devora. (Tempo. Olha Estelle, que tinha
posto a cabeça entre as mãos). Florence era loira.
G – Sabe você, por acaso, que essa pequena vai ser
seu carrasco?
I – É possível que já tenha desconfiado disso.
G – Com ela é que eles vão pegar você. Quanto a
mim... eu... eu... ela não me interessa. Ao passo que com você...
I – O quê?
G – É uma armadilha. Eles estão à espreita, para ver
se você sai na esparrela.
I – Bem sei. E você... você é outra armadilha. Pensa
que eles não previram todas as suas palavras? E que debaixo delas não há
alçapões que nós não vemos? Tudo é armadilha. Mas o que
importa? Eu também sou uma
armadilha. Uma armadilha para ela. Quem sabe se sou eu quem vai pegá-la?
G – Não vai pegar coisa alguma. Somos
cavalinhos-de-pau, que correm um atrás do outro, sem nunca alcançar o que
perseguem. Acredite que eles prepararam tudo. Solte-se, Inês. Abra as mãos,
largue a presa! Do contrário, você fará a infelicidade de nós três.
I – Será que tenho cara de quem larga a presa? Eu sei o que me espera. Vou arder, estou
ardendo e sei que isso não terá fim. Sei tudo. Pensa que largarei a presa? Hei de tê-la. Ela há de ver você pelos meus
olhos, como Florence via o outro. Que tem você de falar de sua desgraça? Digo que sei tudo e nem sequer posso Ter
pena de mim. Uma armadilha! Ah, uma armadilha! Naturalmente, caí numa
esparrela. E daí? Se eles estão contentes,
tanto melhor.
G – Eu posso ter pena de você. (Tomando-a nos ombros): Olha para mim: estamos nus. Nus até os
ossos, e conheço você até o fundo do coração. É um elo entre nós. Acredita que
lhe queria fazer mal? Não me arrependo de nada,
não me queixo. Eu também estou ressequido. Mas de você posso ter pena.
I – (Que se
abandonara enquanto ele falava, agora se desembaraça): Não me toque.
Detesto que me toquem. E fique com sua piedade. Vamos! Para você também,
Garcin, há muitas armadilhas neste quarto. Para você. Preparadas para você. É
melhor se meter com sua vida. Se você nos deixar, a essa pequena e a mim,
completamente em paz, tratarei de não prejudicar você em nada.
G – (Olhando-a
um momento e dando de ombros): Está bem.
E – (Erguendo
a cabeça): Socorro, Garcin!
G – Que quer de mim?
E – (Se
levanta e se aproxima dele): A mim você pode ajudar!
G – Entenda-se com ela.
(Inês se
aproxima de Estelle, coloca-se atrás dela, sem tocá-la. Durante as réplicas que
se seguem, ela lhe falará quase no ouvido. Estelle voltada para Garcin, que
olha sem falar. Responde apenas a ele, como se fosse ele que a interrogasse):
E – Por favor, o senhor me prometeu, o senhor me
prometeu! Garcin, depressa, depressa. Não quero ficar sozinha. Olga levou-o ao dancing.
I – Quem foi que ela levou?
E – Pierre.
Estão dançando juntos.
I – Quem é Pierre?
E – Um bobinho. Ele me chamava de “sua água-viva”.
Ele gostava de mim. Ela o levou ao dancing.
I – Você gosta dele?
E – Sentam-se de novo. Ela está exausta. Por que é
que ela dança? A não ser para emagrecer. É
claro que não. É claro que eu não gostava dele. Ele tem dezoito anos e não sou
nenhum bicho-papão!
I – Então deixe-os. Por que se incomodar com isso?
E – Ele era meu.
I – Nada mais é seu sobre a Terra.
E – Ele era meu.
I – Sim, era. Experimente tocá-lo, experimente
tocá-lo. Olga, sim, pode tocá-lo, não é? Não é? Pode pegar suas mãos, roçar nos seus
joelhos.
E – Ela empurra contra ele o peito enorme. Ela
respira no seu peito. Pequeno Polegar, pobre Pequeno Polegar... O que está
esperando para dar uma gargalhada? Ah! Bastava um olhar meu, e
ela não se atreveria nunca! Será que não sou mesmo mais nada?
I – Mais nada. E não há nada mais de você na terra:
tudo quanto tem está aqui. Quer a faca de cortar papel? O bronze de Barbedienne? O sofá azul é seu. E eu, meu bem, sou sua
para sempre.
E – Ah! Minha? Mas qual é de vocês que
teria a coragem de me chamar de água-viva? A vocês não se pode
enganar. Vocês sabem que eu sou um lixo. Pense em mim, Pierre, só em mim,
defenda-se. Enquanto você pensar: “Minha água-viva, minha querida água-viva”,
eu não estarei aqui senão pela metade, não serei senão meio culpada, serei
água-viva aí, perto de você. Ela está vermelha como um tomate. Ora, isso é
impossível: tantas vezes nós nos rimos dela juntos.Que música é essa? Eu gostava tanto dela! Ah, é o “Saint-Louis
Blues”... Pois que dancem, que dancem! Garcin, você havia de se divertir se
pudesse vê-la. Ela nunca saberá que eu a estou vendo. Estou vendo você, estou
vendo você com esse penteado desmanchado, essa cara transtornada e pisando nos
pés dele. É de morrer de rir. Vamos, mais depressa, mais depressa! Ele me dizia
“Você é tão leve!” Ele a puxa... a empurra. É indecente! Vamos, vamos! (Começa a dançar enquanto fala): Aviso
você que estou vendo. Ela pouco se importa e dança através do meu olhar. “Nossa
querida Estelle!” Que nossa querida Estelle? Ah! Cale-se. Nem sequer
chorou uma lágrima durante o meu enterro! Ela disse a ele: “Nossa querida
Estelle”. Tem a coragem de lhe falar de mim! Vamos! Atenção ao compasso! Ela
nunca seria capaz de dançar e falar ao mesmo tempo. Mas o que é que...? Não, não lhe conte nada! Fique com ele,
leve-o, guarde-o e faça dele o que quiser, mas não lhe conte nada! (Pára de dançar). Bom. Pois bem: agora
pode ficar com ele. Garcin, ela contou tudo; Roger, a viagem à Suíça, a
criança, ela contou tudo! “Nossa querida Estelle não era...” Não, não. De fato,
eu não era... Ele sacode a cabeça com ar tristonho, mas não se pode dizer que a
notícia o transtornou. Fique com ele, agora! Não vou disputar com você aqueles
longos cílios e aquele ar de menina que ele tinha. Ah, ele me chamava sua
água-viva, seu cristal. Pois o cristal se quebrou em migalhas. “Minha querida
Estelle”... Vamos! Atenção ao compasso. Um, dois... (Dança). Daria tudo no mundo para voltar um instante à terra, um só
instante, para dançar. (Dança um tempo). Já
não estou ouvindo bem. Apagaram-se as luzes, como para um tango. Por que tocam
na surdina? Mais alto! Como está longe!
Eu não ouço mais nada... (Pára de dançar):
Nunca mais. A terra me abandonou. Garcin, olhe para mim! Me abrace! (por trás de Estelle, Inês faz sinal a
Garcin para que se afaste).
E – (Autoritária):
Garcin!
G – (Recuando
um passo e mostrando Inês a Estelle): Entenda-se com ela.
E – (Agarrando-o):
Não fuja! Você não é homem? Vamos, olhe para mim, não
desvie os olhos... será tão difícil? Meus cabelos são de ouro e
alguém se matou por mim! Eu lhe peço.
Você tem de olhar para qualquer coisa. Se não for para mim, será para o bronze,
para os sofás... Vale mais a pena olhar para mim, apesar de tudo.
G – (Repelindo-a
a custo): Peço-lhe que se entenda com ela.
E – Ela não
conta! É uma mulher!
I – Eu não conto? Mas, minha cotovia, há
muito tempo que você está abrigada no meu coração. Não tenha medo. Olharei para
você sem parar, sem um estremecimento de pálpebras. Você viverá no meu olhar
como uma lantejoula num raio de sol.
E – Um raio de sol? Não me amole! Há pouco você
quis que pregar uma peça e viu que não deu certo.
I – Estelle, minha água-viva, meu cristal...
E – Seu cristal? É grotesco. A quem quer
enganar? Todo mundo sabe que atirei
a criança pela janela. O cristal está em pedacinhos, no chão, e não me importo.
Sou apenas uma pele. É minha pele não é para você.
I – Venha. Você será o que quiser: água-viva,
água-suja, será quem quiser ser.
E – Largue-me! Você não tem olhos! Que hei de fazer
para que você me deixe? Tome... (Cospe-lhe no rosto. Inês a solta).
I – Garcin, você me paga!
G – Então você quer mesmo um homem?
E – Um homem, não. Você.
G – Nada disso. Qualquer um serviria. Vim parar
aqui, tem de ser comigo. Bom. (Toma-a
pelos ombros). Bem sabe que não tenho nada do que você gosta: não sou um
bobinho e não danço tango.
E – Aceito-o como você é. Talvez eu o transforme...
G – Duvido. Eu serei... distraído. Tenho outras
coisas em que pensar.
E – Que coisas?
G – Para você não teriam interesse.
E – Vou me sentar no sofá... no seu sofá e esperar que se ocupe de mim.
I – (Numa
gargalhada): Ah, cadela! Ele nem mesmo é bonito!
E – (A
Garcin): Não ouça o que ela diz: ela não tem olhos, não tem ouvidos... ela
não existe.
G – Eu darei a você o que puder. Não é muito. Amor,
não. Eu conheço você demais.
E – Você me deseja?
G – Sim!
E – É quanto me basta.
G – Pois, então... (Inclina-se sobre ela).
I – Estelle, Garcin! Vocês perderam o juízo! Eu
estou aqui!
G – Estou vendo. E daí?
I – Vocês não podem... diante de mim... vocês não...
não podem!
E – Por que não? Sempre me despi diante de
minha criada-de-quarto.
I –(Agarrando-se
a Garcin): Deixe-a, deixe-a! Não a toque com essas mãos sujas de homem!
G – (Empurrando-a
violentamente): Basta. Não sou nenhum cavalheiro e não me importo de bater
numa mulher!
I – Você me prometeu, Garcin, me prometeu! Por
favor, você me prometeu!
G – Foi você que faltou com a palavra. (Ela se afasta até o fundo do aposento);
I – Façam o que quiserem. Vocês são os mais fortes.
Mas se lembrem: estou aqui, olhando. Não tirarei os olhos de você, Garcin. Terá
de beijá-la sob o meu olhar. Que ódio tenho de vocês dois! Amem-se! Amem-se!
Estamos no inferno e minha vez chegará!
(Durante a
cena seguinte ela olhará sem nada dizer).
G – (Se volta
para Estelle e a segura pelos ombros. Debruça-se sobre ela e se ergue
bruscamente).
E – (Num gesto
de despeito): Eu disse que não se importasse com ela!
G – Não se trata dela. Gomes está no jornal.
Fecharam as janelas... quer dizer que é inverno. Seis meses. Faz seis meses que
ele me... Não lhe avisei que eu poderia ficar distraído? Eles estão tremendo de frio; não tiraram os
paletós... é esquisito que estejam com tanto frio por lá, e eu aqui, com tanto
calor. Dessa vez é de mim que ele está falando.
E – Será que isso vai demorar? Pelo menos, me conte o que ele está dizendo.
G – Nada. Não está dizendo nada. É apenas um safado.
(Presta atenção). Um safado. Ora! (Volta-se para Estelle): Vamos tratar de
nós. Você gostará de mim?
E – (Sorrindo):
Quem sabe?
G – Terá confiança em mim?
E – Que pergunta boba! Você não sairá dos meus olhos
e não é com Inês que irá me enganar.
G – É evidente. (Um
tempo. Afasta Estelle). Eu me referia a uma outra confiança. (Escuta): Vá, vá! Diga logo o que
quiser. Não estou aí para me defender! (A
Estelle): Estelle, preciso que você tenha confiança me mim.
E – Que complicação! Mas você tem minha boca, meus
braços, meu corpo inteiro. Seria tudo tão simples... Minha confiança? Mas eu não tenho confiança para oferecer. É
horrível como você me constrange. Para exigir assim, minha confiança, deve ter
feito algo de muito ruim.
G – Eles me fuzilaram.
E – Já sei. Você se recusou a partir. E daí?
G – Não. Não me recusei propriamente. (Aos invisíveis): Ele fala bem, sabe
atacar, mas não diz o que se devia fazer. Então, eu havia de entrar pela casa
do general e dizer “Meu general, recuso-me a partir”? Que tolice! Estaria no xadrez. Eu queria
poder manifestar-me, sim, manifestar-me! Não queria que abafassem minha voz. (A Estelle): E eu... eu tomei o trem.
Eles me prenderam na fronteira.
E – Queria ia para onde?
G – Para o México. Pensava em lançar ali um jornal
pacifista. (Silêncio). Então? Diga alguma coisa!
E – Que quer que eu diga? Você fez bem...já não queria combater. (Gesto contrariado de Garcin). Ora, meu
bem, não adivinha o que devo responder?
I – Você deve dizer que ele fugiu como um leão, meu
bem. Porque ele fugiu, o seu queridinho. E é isso que o atormenta.
G – Fugi, parti, diga como entender.
E – Era natural que fugisse. Se você tivesse ficado,
eles o agarrariam.
G – Claro. (Um
tempo). Estelle, acha que sou um covarde?
E – Mas eu não sei, meu amor. Não estou na sua pele.
Você é quem deve resolver.
G – (Num gesto
cansado). Não sei resolver...
E – Afinal de contas, você deve se lembrar. Deve ter
tido razões para fazer o que fez.
G – Sim.
E – E então?
G – Mas será que essas razões eram de fato razões?
E – (Desorientada):
Como você é complicado!
G – Eu queria me manifestar. Eu... eu refleti
maduramente... Será que minhas razões eram de fato razões?
I – Ah! Esse é que é o caso. Será que as razões eram
de fato razões? Você raciocinava, não
queria alistar-se levianamente. Mas o medo, o ódio, todas essas sujeiras que a
gente esconde, também são razões. Vamos! Procure! Pergunte a si mesmo!
G – Cale-se! Pensa que esperei seus conselhos? Eu andava na minha cela noite e dia, da
porta à janela, da janela à porta. Eu era o espião de mim mesmo. Fui seguindo meu
próprio rastro. Tenho a impressão que passei toda uma vida a me interrogar. Mas
estava tudo consumado. Eu tomei o trem, quanto a isso não há dúvida, mas por
quê? Por quê? Enfim, pensei: minha morte
é que vai decidir. Se eu morrer limpo, terei provado que não sou covarde.
E – Como foi a sua morte, Garcin?
G – Foi mal... (Inês
começa a rir). Ora, apenas uma fraqueza corporal. Não me envergonho. Mas o
fato é que tudo ficou no ar, para sempre. (Para
Estelle): Venha aqui, você. Olhe bem para mim. Preciso de alguém que olhe
para mim, enquanto estão falando de mim na terra. Gosto de olhos verdes!
I – Olhos verdes? Essa é boa! E você, Estelle? Gosta de covardes?
E – Se soubesse como pouco me importo com isso!
Covarde ou não, contanto que ele saiba beijar!
G – (Absorto):
Eles abanam a cabeça, fumando seus charutos. Estão chateados. Eles pensam:
Garcin é um covarde. Pensam por pensar, moles, fracos, sem convicção. Garcin é
um covarde: eis o que ficou decidido entre eles, os meus companheiros. Daqui a
seis meses começarão a dizer: “Covarde como o Garcin!” Vocês duas tem sorte; na
terra ninguém se preocupa com vocês. Para mim a vida é pior!
I – E sua mulher, Garcin?
G – Minha mulher? Que tem isso? Está morta.
I - Morta?
G – Esqueci de contar. Morreu há pouco. Há dois meses,
mais ou menos.
I – De desgosto?
G – De desgosto, é claro! De que queria que morresse? Ora! Tudo vai bem! Acabou-se a guerra, minha
mulher morreu e eu passei às páginas da história! (Garcin tem um soluço seco e passa as mãos pelo rosto. Estelle o abraça).
E – Meu bem, meu bem. Olhe para mim, querido! Toque
em mim! (Toma-lhe a mão e a leva ao
seio). Toque-me! (Garcin faz um gesto
se desembaraçando dela): Deixe sua mão em meu seio, deixe! Não se mexa! Que
importa o que pensam de você? Um a um, todos hão de
morrer. Esqueça-os, só eu existo.
G – (Retirando
a mão e o corpo): Não, eles não me esquecem. Hão de morrer, mas outros
virão para repetir a estória. Deixei minha vida em suas mãos.
E – Ora, você pensa demais!
G – Que fazer? Antes eu agia... Ah, poder saltar
entre eles, um dia só! Que golpe! Mas estou fora do jogo. Dão o baralho sem
contar comigo. E têm razão, pois estou morto. Liquidado como um rato. (Ri). Caí no domínio público. (Um tempo).
E – (Com
doçura): Garcin...
G – E você? Pois bem, escute: você vai
me fazer um favor. Não, não diga que não. Sei que você há de achar esquisito
que se possa pedir um favor a você, já que não está habituada a isso. Mas, se
quisesse, se fizesse um esforço, nós poderíamos nos amar de verdade. Veja só:
são mil a repetir que sou um covarde.
Mas o que são mil? Se houvesse uma alma, uma
só, que afirmasse com todas as suas forças, que eu não fugi, que eu não posso
ter fugido, que eu tenho coragem, que sou um sujeito direito, tenho... tenho
certeza de que me salvaria. Acredite
E – (Rindo): Idiota, meu querido idiota! Então você pensa
que eu seria capaz de amar um covarde?
G – Mas você dizia...
E – Estava brincando com você. Gosto de homens,
Garcin, de homens de verdade, de pele áspera e mãos fortes. Você não tem o
queixo de um covarde, a boca de um covarde, a voz de um covarde; seus cabelos
não são os de um covarde. E é pela sua boca, pelos seus cabelos que gosto de
você.
G - Verdade? Verdade mesmo?
E – Quer que eu jure?
G – Agora, eu desafio a todos: aos que estão por lá
e aos que estão por aqui. Estelle, nós vamos sair do inferno. (Inês dá uma gargalhada. Ele a interrompe e
a encara). O que há?
I – (Ainda
rindo): Ela não acredita em nada do que está dizendo. Será que você é tão
ingênuo assim? “Estelle, acha que sou um
covarde?” Se você soubesse como ela
está rindo de suas palavras!
E – Inês! (A
Garcin): Não ouça o que ela diz. Se quer que eu confie em você, comece por
confiar em mim.
I – Pois sim, pois sim! Confie nela! Ela precisa de
um homem, acredite, de um braço de homem na sua cintura, de um cheiro de homem,
de um desejo de homem em olhos de homem... Quanto ao mais... Ah! Para lhe ser
agradável, ela seria capaz de dizer que você é o Padre Eterno!
G – Estelle! É verdade isso? Responda! É verdade?
E – Que quer que eu diga? Não entendo essas coisas. (Batendo o pé). Que irritante que é tudo
isso! Mesmo que você fosse covarde, eu gostaria de você. Pronto! Não basta isso? (Um
tempo).
G - (Às duas):
Tenho nojo de vocês! (Dirige-se à
porta).
E – Que vai fazer?
G – Vou-me embora.
I – (Atalhando
rápido). Não irá muito longe; a porta está fechada.
G – Eles terão de abrir. (Aperta o botão. Não toca).
E – Garcin!
I – (A
Estelle): Não se importe. A campainha está quebrada.
G – Pois garanto que eles hão de abrir. (Bate na porta com os nós dos dedos): Não
agüento mais vocês, não agüento mais! (Estelle
corre para ele e ele a repele): Vá! Tenho ainda mais nojo de você do que
dela. Não quero apodrecer nos seus olhos. Você é perigosa, mole! Você é um
polvo, um pântano! (Bate na porta): Abrem
ou não?
E – Garcin, por favor, não vá! Não falarei mais,
deixarei você tranqüilo, mas não vá! Inês mostrou as garras. Não quero ficar
sozinha com ela!
G – Arranje-se! Não lhe pedi que viesse!
E – Covarde, covarde! Você é mesmo um covarde!
I – (Aproximando-se
de Estelle): Então, minha cotovia, não está satisfeita? Para agradá-lo, você me cuspiu no rosto, e
brigamos por causa dele. Mas o desmancha-prazeres vai-se embora, vai nos deixar
entre mulheres;
E – Você não ganhará nada com isso. Se essa porta se
abrir, eu também irei.
I – Para onde?
E – Não importa. O mais longe possível de você!
G – (Não
cessou de bater na porta): Abram! Vamos, abram! Aceitarei tudo: as tenazes,
o chumbo derretido, as pinças, os garrotes, tudo que queima, tudo o que
dilacera. Quero sofrer de verdade! Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata a
esse sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia,
e que nunca dói o bastante. (Agarra o
trinco da porta e a sacode). Abrem ou não? (A porta se abre bruscamente. Ele quase cai. Um longo silêncio).
I – Então, Garcin? Pode ir.
G – (Lentamente):
Não compreendo porque essa porta se abriu...
I – Que está esperando? Vá, vá depressa!
G – Não, não vou.
I – E você, Estelle? (Estelle não se move. Inês dá uma gargalhada). Então, qual de nós? Qual de nós três? O caminho está livre, quem é que nos prende? É de morrer de rir! Nós somos inseparáveis!
E – (Estelle
se atira sobre Inês pelas costas): Inseparáveis? Garcin, ajude-me! Depressa, ajude-me! Vamos
arrastá-la para fora e fechar a porta. Ela vai ver!
I – (Debatendo-se):
Estelle, Estelle! Eu lhe peço: fique comigo! No corredor, não! Não me atire
no corredor!
G – Solte-a!
E – Está louco? Ela tem ódio de você.
G – Foi por causa dela que fiquei. (Estelle solta Inês, que olha assombrada
para Garcin):
I – Por minha causa? (Um tempo). Bom! Então, fechem a porta. Faz dez vezes mais calor
depois que ela se abriu. (Garcin fecha a
porta). Por minha causa?
G – Você sabe o que é um covarde?
I – Sei, sim.
G – Você sabe o que é o mal, a vergonha, o medo? Houve dias em que você se enxergou até o
fundo do coração, e isso a deixava moída. E no dia seguinte, não sabia o que
pensar, não conseguia decifrar a revelação da véspera. Sim, você sabe quanto
custa o mal. E quando diz que sou um covarde, é com conhecimento de causa, não
é?
I – É.
G – É a você que eu devo convencer: você é da minha
laia. Pensou, então, que eu me iria embora? Eu não poderia deixar você
aqui, triunfante, com todos esses pensamentos na cabeça, esses pensamentos que
me dizem respeito.
I – Quer mesmo convencer-me?
G – Não quero outra coisa. Já não os escuto mais,
sabe? Decerto é porque já não em mais nada a ver
comigo. Acabou-se. Está arquivado o caso. Nada mais sou sobre a terra, nem
mesmo um covarde. Estamos sós, agora, Inês: só restam vocês duas para pensar
I – Não será fácil. Olhe para mim: tenho a cabeça
dura.
G – Empregarei nisso todo o tempo que for
necessário.
I – Você tem o tempo todo. O tempo todo!
G – (Tomando-o
pelos ombros): Escute. Cada qual tem o seu alvo, não é mesmo? Nunca liguei prá dinheiro, prá amor. Só
queria ser um homem. Um forte. Apostei tudo numa só cartada. Pode ser um
covarde aquele que escolheu os caminhos mais perigosos? Pode-se lá julgar toda uma vida por um só
ato?
I – Por que não? Durante trinta anos você
sonhou que tinha coragem, e se permitiu mil pequenas fraquezas, porque aos
heróis tudo é permitido. Que cômodo que
era! Depois, na hora do perigo, encostaram você na parede, e você tomou o trem
para o México.
G – Não sonhei com esse heroísmo. Escolhi-o. A gente
é o que a gente quer ser.
I – Prove, então. Prove que não era um sonho. Só os
atos decidem sobre o que a gente quis.
G – Morri cedo demais. Não me deram tempo para
praticar os meus atos.
I – Morre-se sempre cedo demais... ou tarde demais.
No entanto, a vida aí está, liqüidada. Já se deu o traço debaixo das parcelas,
resta fazer a soma. Você nada mais é do que sua vida.
G – Víbora! Tem sempre resposta para tudo!
I – Ora, vamos, não desanime! Deve ser fácil para
você me persuadir. Procure argumentos, faça um esforço. (Garcin sacode os ombros). Então, como é? Não disse que você era vulnerável? Agora, vai pagar caro. Você é um covarde,
Garcin, porque eu quero que você seja um covarde. Eu quero, compreende? Eu quero! No entanto, veja que fraquinha eu
sou: um sopro. Sou apenas o olhar que está vendo você, o pensamento incolor que
está pensando em você. (Ele caminha para
ela de mãos abertas). Ah, abrem-se agora essas mãos grossas de homem. A
troco de quê? Não se agarram pensamentos
com as mãos. Vamos, não tem o que escolher! Tem de me convencer. Pilhei-o!
E – Garcin!
G – O que é?
E – Vingue-se!
G - Como?
E – Beije-me! Ela vai ficar danada.
G – É verdade, Inês! Você me pilhou, mas a pilhei
também. (Debruça-se sobre Estelle. Inês
dá um grito).
I – Covarde, covarde! Vá se fazer consolar por
mulheres!
E – Dane-se, Inês! Dane-se!
I – Bonito par! Se você visse essa pata grossa
achatada nas suas costas, machucando a carne e o vestido. Ele tem mãos, está
transpirando. Vai deixar no vestido u’a mancha azul.
E – Dane-se, dane-se! Aperte-me mais contra você,
Garcin. Ela vai estourar!
I – Isso mesmo, aperte-a bem forte. Aperte-a!
Misturem bem os seus calores! Que bom que é o amor, hein, Garcin? É morno e profundo como o sono, mas não
deixarei você dormir.
E – Não ouça o que ela diz. Tome a minha boca! Sou
toda sua... sua!
I – Então, o que é que você está esperando? Façam o que mandam! Garcin: o covarde, tem
nos seus braços Estelle, a infanticida. Façam as apostas! Garcin, o covarde,
conseguirá beijá-la? E estou vendo vocês, vendo
vocês! Eu sozinha sou toda u’a multidão! A multidão, Garcin, compreende? A multidão... (Murmurando): Covarde, covarde, covarde! É inútil fugir de mim. Não
deixarei você. Que é que está procurando nos lábios dela? O esquecimento? Mas eu... eu não esquecerei
você. E é a mim que você tem de convencer... a mim! Venha, venha! Espero por
você. Veja, Estelle: ele já desaperta o seu abraço. É obediente como um
cachorro... Você não há de tê-la!
G – Não ficará escuro nunca?
I – Nunca.
G – Você me verá sempre?
I – Sempre!
G – (Deixa
Estelle e faz alguns passos
E – Meu amor...
(Repelindo-a,
Garcin grita):
G – Deixe-me. Ela está entre nós dois. Não posso
amar quando ela me vê!
E – Ah, é assim? Pois ela não nos verá mais!
(Toma a faca de cortar papel,
precipita-se sobre Inês, desferindo-lhe vários golpes).
I – (Debatendo-se
e rindo): Que é que você está fazendo? Que está fazendo? Ficou louca? Bem sabe que já estou
morta!
(Estelle deixa
cair o cortador de papel. Um tempo. Inês a apanha e põe-se a golpear com raiva,
falando):
I – Morta, morta, morta! Nem a faca, nem o veneno,
nem a forca! Está tudo acabado, compreende? E estamos juntos para
sempre! (Ri).
E – (Dando
risadas). Para sempre, meu Deus! Que engraçado! Para sempre!
G – (Ri e olha
para as duas). Para sempre!
(Os três caem
sentados, cada qual sobre um sofá. Um longo silêncio. Deixam de rir e se
entreolham. Garcin se ergue).
G – Pois é. Vamos continuar?
-
oOo –