“Concebo o amanha como uma entidade, um ser palpavel, que está ali, a minha espera.” A moça virou-se para o rapaz com um misto de satisfação e regozijo no rosto. A frase parou no ar, suspendeu-se sob as cabeças das pessoas e entrou em cheio em minha mente.

Naquele instante, parado na fila para pegar o ônibus eu estava mais preocupado com o maldito coletivo que, como sempre, estava atrasado. Pobre prefeito! Era xingado! E coitada da mãe dele se soubesse do que era chamada desistiria de tudo.

Quanto perde um político por estar numa porcaria de ônibus atrasado! Era só o que se comentava na fila de ônibus. Por isso aquela frase me pegou, e como! O que ela quis dizer? Como ser o amanha algo palpável? Entidade? Estranho! Tudo isso foi achegando-se em minha mente, mexendo em meu raciocínio e não pude mais parar de pensar a respeito, teria que analisar a questão para chegar a uma conclusão. Precisava tirar conceitos e ir a procura do que ela disse. Não foi só a frase, a expressão do rosto dela é que marcou mais. Ela creditava e mais, sentia satisfação naquilo. Tinha prazer em pensar daquela forma. Era como se ela fosse uma visitante do amanhã no ontem. Se eu pudesse falar com ela, mas sequer pensei nisso naquela hora, sem explicações e com a cabeça cheia de amanhãs, não conseguia mais pensar em nada. A que amanhã ela se referia? O que vem depois de hoje? Bem que poderia afinal sempre nos referimos a esse dia como o cúmplice que nos aguarda para uma conspiração. Afinal o amanhã saberá tudo de hoje e até mesmo de ontem, portanto é nós mesmo muito mais instruído e sabido. O que mais queremos, na verdade é estar lá, com ele, seja para saborear as coisas boas que acontecerão seja para fugir das ruins que aconteceram. Afinal essa de que “gostaria que isso durasse eternamente” não é nada mais do que um transporte para o amanhã do que temos ou sentimos agora, o agora eternizado. O hoje vai-se  mas tendemos sempre a eternizar o que ele trouxe de bom.  Ou o amanhã da moça seria o futuro incerto e duvidoso? Estaria ela referindo-se à época vindoura? Esse enigma sem sentido e muitas vezes até amedrontador que sequer queremos imaginar? Não gostaria de ter esse senhor a minha espera. Não penso nele afinal é algo tão distante quanto as estrelas., mas, presente também no dia a dia  e com que violência nos é lembrado. Não deixam sequer um pouco de esperança, quem fala desse amanhã, só consegue fizer guerra, catástrofes e calamidades. Estudos, pesquisas e mais estudos são sempre feitos, publicados e transmitidos pelos meios de comunicação como se quisessem convencer a todos que esse amanhã jamais chegará. É a própria antítese em favor da tese, deixando a todos estarrecidos e amedontrados. Talvez seja mesmo dessa forma que se consiga convencer a todos que temos um futuro, mas pergunte a qualquer um na rua se acredita nisso. É uma boa questão para analisarmos, afinal não estamos falando de tudo o que temos? Sim como não? O futuro é o hoje eternizado é o tempo que tem-se à frente, sem limites. Considerando o tempo no contexto criado pelo homem. Tirando-nos o futuro nada teremos, nada seremos, portanto ele é a esperança, a esperança que sempre será a última a morrer. Assim chegamos a conclusão que deveremos evitar previsões de futuros negros, na verdade, elas são para convencer do contrário,  só que não andam fazendo o efeito esperado, mas com crédito ou sem crédito, a gente continua. Nada melhor do que um dia após o outro e afinal de contas amanhã é muito cedo para a humanidade. Falei com amigos, convenci pessoas, fiz uma revolução com tudo isso. Não deixei por menos, de qualquer forma foram dias de pensamentos e labuta em favor do amanhã. Algum tempo mais tarde, novamente eu na fila ouvindo falar do prefeito, quando  vejo quem? A moça do amanhã. Sorrio para ela, que vira o rosto. É claro, não me conhece, chego até ela e cumprimento-a, explico-lhe a situação, ela me diz calmamente:”Não sei do que está falando, nunca disse isso, se disse não lembro”. Bom! A moça realmente não lembrou mais de nada, ela sequer acreditava no dia de amanhã, todos os dias eram iguais e o hoje era o todo sempre. Os pensadores cientistas e estadistas que se preocupassem com o amanhã, enquanto ela vivia o hoje. Não me enganei de pessoa, tenho certeza, mas talvez aquela frase tenha sido pega solta em algum lugar e ela disse ao rapaz para impressiona-lo. Não sei, só sei que a impressão mais forte que tenho na mente é a expressão do rosto dela que não consegui esquecer. Quem sabe, amanhã consiga esquecer.